O dia que eu conheci Vincent Cassel ou a foto que não fiz

Adoro a cidade do Rio de Janeiro. Sempre que minha filha passa alguma temporada na cidade maravilhosa, a trabalho, tento me encaixar na casa onde ela se hospeda, passar uns poucos dias em sua companhia e aproveitar para flanar pela cidade.

Chegar ao Rio de avião é uma experiência única. A proximidade da aterrisagem, a agua brilhando, a pista chegando… (inevitável não citar Tom Jobim, até porque durante toda a viagem ele fica cantando na minha cabeça, “minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudades… Rio você foi feito pra mim…).

Em uma das vezes ela estava hospedada no Bairro Peixoto – que não é bem um bairro e sim uma praça rodeada de edifícios e casas. Um enclave dentro de Copacabana. Meu encantamento já começou ali, pois é no Bairro Peixoto que reside um dos meus mais queridos personagens, o delegado Espinosa – do autor Alfredo Garcia-Roza. Minha mente de leitora se encanta por passear e reconhecer os lugares por onde caminha o personagem, Delegacia de Copacabana, Galeria Menescal, Restaurante Cervantes…

É como se a qualquer momento ao entrar em um bar vou encontrar o delegado Espinosa tomando um chopp. Loucuras que só quem lê, entende.

Chegando a casa cumprimento a filha e os demais moradores, quase todos meus conhecidos, e anuncio, ‘vim aqui pra te ver e encontrar o Vincent Cassel’. Em coro todos perguntam, ‘quem?’ ‘Vincent Cassel, ator francês que sei que mora aqui no Rio, mais exatamente no Arpoador’. ‘Mãe, você sabe quantas pessoas vivem no Rio de Janeiro?’ ‘Com certeza milhares, mas estre esses milhares está Vincent’. Já não dizia o nome completo, era como se ele fosse já meu amigo e eu estava ali para encontra-lo. Risos gerais, já me havia tornado objeto de chacota. ‘Mãe você é ridícula’. ‘Veremos’

Todos voltam a trabalhar e eu munida de máquina fotográfica saio para aproveitar meus dias de passeio, Parque Lage, Jardim Botânico, Largo da Carioca, Rua do Ouvidor, comer um peixinho com a filha na Rua André Cavalcanti, cervejinha com os amigos na Lapa…

Penúltimo dia, antes de ir ao teatro vou até Ipanema para fazer fotos do fim da tarde e começo da noite, na esperança de registrar as luzes do Vidigal. Ando pelo calçadão faço algumas imagens e quando já me disponha a ir embora, para não me atrasar para o teatro, eis que cruzo com ninguém mais que VINCENT CASSEL, o próprio. Passa por mim de sunga, uma canga amarrada no pescoço, acompanhado de uma mocinha linda, de uns 13 anos que desconfio ser sua filha. Ligo imediatamente para minha filha e digo, ‘adivinha quem eu vi no calçadão do Arpoador?’ Ela sem responder, diz, ‘você está brincando mãe!’ ‘Não, ele acabou de passar por mim’. ‘Você fez uma foto?’ ‘Claro que não, como eu ia parar o homem e pedir pra fazer a foto. Ele cruzou meu caminho, eu olhei, levei dois segundos para processar a informação e ele se foi’.

Quase sempre esse tipo de situação me inibe. Não tenho coragem de molestar a pessoa para fazer a foto. Basta com tê-lo visto.

Depois disso deixei de ser chacota. Fui ao Rio para ver o ator e vi.

Veni, vidi, vici.

Quanto a foto, publico a que fiz na praia no dia que conheci Vincent Cassel, “Luzes do Vidigal”, minha foto mais linda, até hoje.

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Sábado de aleluia. Dia de malhar Judas. Véspera da Páscoa, dia da ressurreição.

Aproveito o sábado de sol de folga para levar comprar cadernos de desenho e levar algumas fotos para enquadrar. Cumprida as tarefas, tomo um ônibus para ir a Praça Benedito Calixto . Sento-me ao lado de homem, moreno, limpo apesar do leve odor de roupa usada. Tem na mão um papel enrolado onde – eu,  curiosa – consigo ler a palavra alvará.

O homem percebe minha curiosidade e puxa papo:

-Está sendo bom o seu feriado?

-Sim. Não pude viajar, porque estou sem grana, mas dá pra aproveitar a cidade e passear.

-Ah… passear é muito bom

-E amanhã é dia de almoço em família. Vou fazer comida para os netos e filharada.

-A família é muito importante. Sabe, a gente só dá valor pra aquilo que está ao nosso lado quando perde. Eu não sou daqui. Sou de Minas, uma cidadezinha bem pequena. Vim pra São Paulo pra tentar um emprego melhor, mas não consegui.

Nesse momento ele abre o papel que estava enrolado em sua mão, me mostra e diz:

-Acabei de sair da cadeia – olhos baixos – não conseguia emprego, fui viver na rua, veio o inverno, passei muito frio e fome. Fiz uma besteira e fui preso.

Eu apenas disse:

-Que bom que você saiu, parabéns pela liberdade.

-É… mas não posso ver minha familia. Não tenho permissão para sair da cidade. Fiquei 40 dias preso porque sou primário e agora vou aguardar o julgamento em liberdade, mas tenho que ficar nacidade.

-Você precisa arrumar um trabalho. Vc tem carteira de trabalho?

-Não. A polícia quando me pegou jogou todos os meus documentos fora. O único documento que tenho é esse alvará de soltura.

-Mas você tem alguma profissão?

-Sim, sou auxiliar de cozinha – e enumera outras coisas que sabe fazer e cursos que fez pelo Senai em Minas – vou ver se consigo os certificados pela internet e tirar os documentos para poder trabalhar. Também tenho que ter um endereço fixo. Estou indo para um albergue até conseguir me ajeitar.

Me apresento, lhe passo meu e-mail e digo que assim que ele tiver documentos e um currículo que mande eu me encarrego de repassar para meus conhecidos. Quem sabe ele consegue alguma coisa. Ele me agradece, diz seu nome, Ricardo Vitor.

-Ricardo, você saiu da cadeia com algum dinheiro?

Não, senhora. Apenas o da condução pra chegar no albergue. Vou precisar me virar pra conseguir pelo menos o suficiente para manter minha higiene pessoal e minha dignidade.

Sem dinheiro, sem documento, sem endereço. Apenas com a roupa do corpo e a vontade de nunca mais voltar pra cadeia. Abro a carteira, tiro 50 reais – dos 180 que recebi do FGTS inativo – lhe ofereço e digo:

-Esse dinheiro não está me sobrando, mas acho que você precisa dele mais do que eu. Quando você arrumar um emprego, você me paga uma cerveja, combinado?

Ricardo Vitor me agradece com um misto de espanto e alegria e diz:

-Deus põe muita gente errada no nosso caminho, mas às vezes põe a pessoa certa na hora em que a gente mais precisa. Vou pagar pra senhora muitas cervejas.

Chega o meu ponto, me preparo pra descer e digo, boa sorte Ricardo e juizo. Ele se despede e me olha agradecido.

No dia de malhar Judas preferi ressuscitar Ricardo Vitor. Continuar lendo

Faça amor e não faça guerra ou comece a revolução e termine fazendo amor

 

(para Raul Andreucci)

Mais um fim de manifestação com a polícia distribuindo bombas e cacetadas pra todo lado. Maneco conseguira, com alguns amigos, se esconder em um bar no Largo da Batata. Outros se dispersaram na multidão, apavorados com a violência, já corriqueira, da PM.

Passado o tumulto, e o susto, ainda deu tempo pra mais uma cerveja antes que cada um tomasse seu rumo. A conversa versava sobre o mesmo tema, derrubar o poder. Trazer de volta a presidenta eleita e deposta injustamente. Alguns queriam continuar com as manifestações pacíficas, outros queriam guerra, atacar a PM com bombas, ressuscitar a guerrilha. Depois de um cerveja, que viraram dez, – afinal ninguém faz a revolução com uma única cerveja – o grupo já havia deposto o governo, restaurado a democracia e cada um tomou seu rumo como herói da pátria.

Maneco se despediu de seus amigos e correu para tomar o último metrô. Ao sinal de fechamento da porta uma moça dispara na tentativa de não perder o derradeiro trem, Maneco segura a porta, ela entra e agradece.

Sentados frente a frente, vagão quase vazio, olham-se com simpatia. Maneco tira da mochila o livro “Ditadura Envergonhada”, leitura tantas vezes adiada e agora encarada com responsabilidade e obrigação. Afinal há que se entender o momento em que atravessamos.

A moça, atenta aos movimentos de seu salvador, se sente segura e tira da bolsa “O povo Brasileiro”. Maneco de soslaio lê o título do volume e pensa, ‘não, eu não estou sozinho, não estamos sozinhos’!

Com uma risadinha sem graça, muda de lugar, senta-se ao lado da moça e pergunta, ‘estava na manifestação?’ ‘sim, você também?’ ‘hãhã, como vc se chama? ‘Elena, e você?’ ‘Manuel, Maneco, Todos me chamam de Maneco.’ ‘Gosto de Manuel’. ‘Vai descer onde, Elena?’ ‘Butantã, moro perto da estação.’ ‘Eu,também (mentira), posso te acompanhar até sua casa.’ ‘ OK, você já o Povo Brasileiro?’ ‘ainda não, está na minha fila de leituras.’ ‘Ah… você tem que ler, estou quase no fim, é muito bom, mas lê antes “Raízes do Brasil” e “Visão do Paraíso”, você vai gostar muito…’ Vou anotar. Você podia me emprestar assim a gente podia se encontrar, tomar uma cerveja, café, suco…’ ‘Claro, pode ser na próxima manifestação.

Chegam à Estação Butantã e seguem juntos.

(isto é uma obra de ficção, qualquer correspondência com fatos e/ou pessoas é de responsabilidade da realidade)

 

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foto Richard Lam.

Seu Antonio, o doceiro

 

Hoje fui a Rua Rangel Pestana para comprar linóleo para fazer xilogravura (fui picada pelo mosquito aedes xilo). Desci na estação Brás do metrô, como não tinha certeza do caminho pra chegar à loja, parei em uma barraquinha, bem pequena mesmo, de doces e perguntei  para o senhor que lá estava, ‘a Rangel Pestana é nessa direção?’ É sim, logo ali debaixo do viaduto, visse’.

Aquele visse no fim da frase me matou. Adoro o sotaque pernanbucano. Segui até a loja comprei o que precisa e na volta não resisti, parei na barraquinha, agradeci pela informação e comecei a conversar:

-Como o senhor se chama?

-Antonio.

-Igual ao meu avô. Seu Antonio, posso fazer uma foto sua?

-Claro.

Ele ficou bem sério e paciente esperando que eu clicasse. Depois continuamos a conversar. Me contou que era do Pernambuco que vivia em São Paulo há vinte anos. Veio primeiro depois trouxe a mulher  e o filho.

-Tem pais vivos?

-Não, mainha faleceu em 94, em 95 vim pra São Paulo. Nunca que ia deixar mainha só láno sertão. Só vim depois que ela morreu.

-E onde o senhor mora?

-Em São Mateus.

-Meio longinho, né?

-Olhe, pois eu não troco meu cantinho por nada nesse mundo Imagine que cheguei em São Paulo com cem reais no bolso e agora até casa minha tenho. Ainda não está do jeito que eu quero, mas é meu paraiso.

-E seu filho estuda?

-Ele terminou o colégio, mas não quis estudar mais. Mas é um menino de ouro, trabalha como motorista, não me dá um tantinho de preocupação. Eu mesmo também não quis estudar. Éramos em dezoito, tenho irmã psicóloga, professora,irmão advogado… Eu não servia pro estudo acabei fazendo doces.

-E isso não é bom? O senhor é doceiro, adoça a vida da gente.

-É, isso é.

-Bom seu Antonio vou se indo. –Nisso ele me ofereceu um doce.

-Brigada, seu Antonio, mas eu queria mesmo era uma lasquinha desse quebra-queixo  – que estava lindo, enchendo minha boca de agua. Qaunto é?

-Ora, não é nada, não, é uma gentileza que lhe faço.

Insisti para pagar, mas ele não aceitou. Ao me despedir lhe estendi a mão que ele segurou e disse, ‘moça, seus olhinhos tem muita bondade. Jesus lhe quer muito bem. Vá com Deus.

Me despedi com um amém e lhe agradeci.

Fui caminhando em direção à estação comendo meu quebra-queixo e com um sorrisinho besta na cara, pensando na bondade de meus olhos.

Foi a coisa mais linda que alguém já disse pra mim.

A bondade está nos olhos de quem vê.
Obrigada, Seu Antonio.

seu antonio

O Brasil que vem aí

 

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.

Gilberto Freyre – 1926

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Diálogo na Livraria ou o Diabo está em toda parte

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Enquanto espero meu livro no balcão do Sebo do Messias, escuto o seguinte diálogo entre o vendedor e uma senhora, de uns 40 anos, acompanhada de sua mãe. Deduzo que ambas são evangélicas pelo comprimento da saia e do cabelo.

– Pois não…

– Cê tem o livro “A farsa de Inês Pereira”?

– Vou verificar… Sim, temos a edição que contem a “Farsa…” e também “O auto da barca do inferno”.

– Barco do inferno??

– Não, Senhora. “O auto da barca do inferno”

– Pois fique com o barco do inferno pra você. Eu só quero aquele que eu pedi.

– !!??… Senhora, geralmente os livros de Gil Vicente sempre trazem as duas peças juntas. É difícil encontra-las separadas.

– Como assim?

– Como assim o quê, minha Senhora?

– Como é que é esse livro então?

– … (suspiro) É um livro que contem a peça que senhora me pediu mais “O Auto da Barca” – nesse momento a vendedor já havia percebido o efeito que a palavra inferno causava e resolveu omiti-la.

– Ai, não sei… essa história de inferno… Posso ver o livro?

O vendedor traz o volume. Com a intimidade de quem nunca havia pegado em um livro, salvo a sagrada bíblia, claro, a mulher o vira de todos os lados, abre em algumas páginas parecendo que espera encontrar ali o próprio Tinhoso. Depois de examina-lo com toda atenção, vira-se para sua mãe e diz:

– O que vc acha, Mãe? Compramos o livro assim mesmo?

– Não sei filha, vc que sabe.

Com cara de quem está prestes a cometer um pecado, a mulher resolve levar o livro.

E que o Senhor e o Pastor a perdoem por tal heresia.

O instante contínuo

A fotografia é, hoje em dia, um ato/objeto banal.  Já não é mais um registro da memória e sim do imediato. Vivemos a era do auto retratar-se em toda e qualquer situação. Tudo é visto pela tela do celular ou tablet por uma fração de segundos, tempo suficiente para o clic apressado. Feita a foto, ela será vista por um ou dois segundos – se muito – pois são tantas e não há tempo para deter-se em nenhuma. Esse registro digital ficará esquecido até ser definitivamente descartado para liberar espaço no celular, cartão ou computador.

Para liberar “memória” descartamos nossas memórias. Gavetas, caixas de sapatos, malas eram os possíveis lugares usados para armazenar fotos antes da era digital. Guardavam o nosso passado em imagens que, quando trazidas à luz, nos devolviam, como num filme, os momentos vividos.

Eu, assim como todo o mundo, me rendi aos encantos das câmeras digitais, mas percebi a tempo o perigo que elas representavam para conservação de minha história pessoal. Por isso retornei a fotografia analógica com uma paixão renovada. No entanto, meu olhar se expandiu além da fronteira familiar e busca outros horizontes.

Recentemente tive a oportunidade de registrar os ensaios da peça Otelo e o próprio espetáculo. Experiência única e prazerosa que me permitiu acompanhar o progresso do trabalho dos atores. Pude fazer fotos da mesma cena em etapas diferentes e comparar as sutis ou radicais mudanças que ocorriam. Como também amplio, me debruço sobre as fotos e absorvo toda a beleza ali contida. Às vezes fotos que num primeiro momento não aparentam ter nada de especial observadas com a devida atenção ganham outro significado.

Gosto em especial de uma foto. Há um momento na peça em que Otelo, já contaminado pelo ciúmes, segura a mão de Desdêmona. Por quase duas horas trabalhei sobre essa imagem, mergulhei na luz, nos contornos, no gesto. Principalmente no gesto e no olhar dos personagens. E me senti egoisticamente dona desse instante contínuo.

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